Gestação e nascimento de um sobrinho
Ele já me conhecia. Chegara o momento de conhecê-lo.
“Apesar de nossas falhas, os milagres existem para prova-las que elas não são maiores que a misericórdia de Deus.”
Venho de uma família simples, de pais analfabetos e agricultores do interior do Rio Grande do Norte. Meu pai era alcoólatra, e minha mãe foi separada da família por seguir a incitação e amar um homem casado, que era meu pai. Dois filhos foram gerados desse relacionamento.
Aos dois anos de idade, devido aos problemas e aos abusos relacionados ao álcool, minha mãe passou a cuidar sozinha das duas crianças. Nos anos 1990, isso era algo complexo e doloroso para a sociedade. Sem renda ou oportunidade de trabalho, minha mãe fazia vendas de alimentos de casa em casa, de porta em porta: cocadas, pamonhas, milho cozido.
Anos depois, ela se casou com um homem divorciado, 25 anos mais velho. Ele abusava de mim e rejeitava meu irmão. Tivemos sérios impactos psicológicos e físicos. Adquiri depressão, ansiedade, complexo de inferioridade e tendência ao homossexualismo, enquanto meu irmão entrou para a dependência química e para os jogos.
Consegui, com o apoio da paróquia e de psicólogos, superar parte dessas dificuldades e me inseri no grupo de coroinhas. Meu irmão não conseguiu da mesma forma e passou pelo sistema prisional e por casas de recuperação durante anos, até meu pai falecer de câncer terminal, em 2018, um mês antes de eu participar da minha primeira JMJ, no Panamá, em 2019.
Sempre busquei, nos estudos, o alto da montanha, que para mim era a Fé. Tentei o seminário diocesano como seminarista propedêutico e também os Frades Menores Capuchinhos, como postulante. Por último, fui vocacionado agostiniano. Não encontrei minha vocação, frustrei-me na fé e decidi não ter relacionamento e não ter filhos.
Conheci Frassati em buscas na internet, ainda na faculdade, no ano de 2009. Em 2013, quando saí do convento, voltei para minha cidade natal, onde me dediquei à ajuda aos mais necessitados por meio da SSVP.
Criamos juntos uma conferência jovem chamada São João Paulo II. Nela, o exemplo e a fidelidade de Pier eram um dos pilares. Rezávamos o Rosário nas montanhas da região, organizando retiros e eventos também fora da nossa cidade. Chegamos a formar um grupo de quase cem jovens.
Por questões financeiras, precisei mudar de cidade para trabalhar. Porém, no meu coração, faltava algo: o desejo de que minha mãe tivesse um neto.
Foi aí que entrou Pier. Escrevi uma carta e pedi uma relíquia. Ela veio de Turim: um ex-lintéis do Servo de Deus Pier Giorgio Frassati. Ali, eu rezava e pedia constantemente por minha vocação na Igreja.
Após o falecimento do meu pai, com as orações da minha mãe e as minhas, sua conversão aconteceu. Porém, ele se converteu ao protestantismo junto de uma namorada que viria a ser sua esposa. Ambos eram usuários de drogas e portadores de DSTs.
A notícia de uma cirurgia de urgência nos assustou. Minha cunhada estava com uma gravidez nas trompas, obstruindo o útero e causando o rompimento da placenta, o que ocasionou um aborto e a retirada de uma trompa. Os resultados dos exames informavam que uma outra gravidez, sem o tratamento adequado, teria apenas 0,1% de possibilidade de acontecer.
Eles decidiram não fazer o tratamento e acreditar na promessa de um filho gerado pela misericórdia de Deus.
Prometi a Pier que, enquanto tivesse condições financeiras, participaria de todas as JMJ que pudesse. Eu o conheci na JMJ de 2009, pela televisão, durante o pontificado de Bento XVI. Vi aquele jovem com um caixão exposto e patrono de uma Jornada em que o Espírito Santo era o interlocutor. Ali eu soube que um amigo havia me chamado.
Ele já me conhecia. Chegara o momento de conhecê-lo.
Em 2023, durante a JMJ Lisboa, fui até Lourdes, à fonte, e clamei pelo milagre de um sobrinho. A grande propagadora da causa de Pier era uma sobrinha dele. Pensei: por que eu também não poderia ser o tio que clamaria por um milagre e seria atendido?
Hoje tenho mais clareza da missão de ser essa pessoa.
Junto à fonte, pedi a Maria que se juntasse a Pier e fizessem com que Deus nos escutasse.
Voltei da viagem e, dois meses depois, descobrimos que, seis anos após aquele aborto, um menino estava a caminho. Contrariando as expectativas médicas, ele nasceu perfeito e no lado do útero onde o outro bebê havia sido retirado junto com a trompa.
Hoje temos Josué Isaac como uma promessa cumprida por Deus. Ele tem pouco mais de um ano.
O parto foi difícil e induzido ao natural. Foram três dias de idas e vindas à maternidade. A primeira entrada aconteceu no dia 6 de abril de 2025. A data? Mistério.
Ele nasceu sem respirar no dia 9 de abril. A água de Lourdes foi aspergida por minha mãe enquanto a criança ainda estava no colo da mãe, durante a reanimação realizada pela equipe médica.
Ele respirou.
E está entre nós, saudável e cheio de energia, finalizando sua primeira dentição completa.
Prometi comparecer à canonização no Jubileu da Juventude de 2025. Nela, meu santo amigo seria canonizado.
Enfim, o Papa Leão XIV alterou a data, e fiquei muito triste. Não veria meu amigo elevado aos altares naquela oportunidade. Pensei em desistir e cancelar a viagem, aguardando a canonização.
Porém, ele me pedia para aguardar o tempo melhorar, para dar mais um passo na montanha que eu haveria de continuar escalando.
Então veio uma grande alegria: o corpo do meu amigo estaria exposto à veneração, assim como havia acontecido em Madri, para onde não pude ir.
No dia 1º de agosto, eu estava na Basílica de Santa Maria sopra Minerva, aguardando, com lágrimas nos olhos, o Rosário nas mãos e sua relíquia, para entrar e derramar minha gratidão aos pés daquele que me ensina todos os dias que nossa vocação é estar onde Deus nos quer.
Nos jovens.
Hoje desenvolvo jovens aprendizes em uma experiência de 90 dias na empresa Riachuelo, em Natal, no Rio Grande do Norte. Aqui, vivo o apostolado de Pier. No meu silêncio e nas minhas palavras, ouço meu amigo me ensinando sobre a paciência e o cuidado com as almas.