Dois amigos, uma vocação: a história entre São Pier Giorgio Frassati e Dom Franz Massetti

Uma amizade feita de estudos, brincadeiras, fé e uma despedida que só depois revelou todo o seu significado.

 

Algumas amizades começam de maneira simples, quase sem que seus protagonistas percebam a importância que terão no futuro. Foi assim com Pier Giorgio Frassati e Francesco Vittorio Massetti, conhecido como Dom Franz.

 

Os dois se conheceram em Turim, onde estudavam Engenharia na Universidade Politécnica. Eram jovens, compartilhavam o ambiente universitário e, pouco a pouco, construíram uma amizade marcada pela alegria, pela confiança e, sobretudo, pela fé.

Franz viria a se formar engenheiro. Pier Giorgio, porém, não teria tempo de concluir seus estudos: morreria aos 24 anos, em julho de 1925. Ainda assim, antes de partir, deixaria no amigo uma marca que o acompanharia por toda a vida.

 

Um amigo entre brincadeiras e apelidos

 

Pier Giorgio tinha um talento especial para inventar apelidos. Franz não escapou de sua criatividade.

Ele o chamava de “Petronius, arbiter elegantiarum”, uma referência a Petrônio, conhecido na tradição romana como “árbitro da elegância”. O apelido combinava com Franz, cuidadoso com sua aparência. A amizade tinha também esses pequenos gestos de intimidade.

Segundo as lembranças preservadas, era Franz quem muitas vezes ajeitava a gravata de Pier Giorgio, uma cena simples, quase doméstica, mas que revela a proximidade entre os dois.

Pier Giorgio gostava de brincar com os amigos, mas levava a amizade muito a sério. Para ele, ser amigo significava também querer o bem do outro. Por isso, não hesitava em aconselhar Franz quando julgava necessário. Sua amizade não dizia apenas “estou ao seu lado”, mas também: “quero que você se torne aquilo que Deus deseja de você.”

A fé não era um assunto separado da amizade. Era justamente aquilo que dava sentido a ela.

 

Quando a caridade vira gesto

 

Entre as lembranças de Dom Franz está uma das histórias mais bonitas sobre a delicadeza de Pier Giorgio.

Quando Franz chegou a Turim, Pier Giorgio foi encontrá-lo na estação. Sabendo o quanto lhe custava deixar sua cidade, procurou uma maneira de aliviar sua tristeza. Fez com que Franz desembarcasse antes e, junto com seus pertences, ajudou a levá-lo até o automóvel do senador Alfredo Frassati.

Pode parecer um gesto pequeno.

 

Mas Pier Giorgio tinha justamente essa maneira concreta de amar: percebia uma necessidade e fazia alguma coisa.

Anos mais tarde, ao recordar o amigo, Dom Franz reconheceria nele essa bondade, caridade, nobreza e delicadeza cristãs.

E existe algo ainda mais bonito nessa história: as mesmas virtudes que Franz admirava em Pier Giorgio também se tornariam características de sua própria vida.

 

Uma amizade que apontava para Cristo

 

Pier Giorgio não queria apenas ter bons amigos. Queria que seus amigos também encontrassem a felicidade em Deus.

Há relatos de conversas e cartas em que ele aconselhava Franz, procurando ajudá-lo a discernir suas escolhas. Para Pier Giorgio, uma amizade verdadeira podia exigir coragem para dizer ao outro aquilo que ele precisava ouvir.

Esse modo de viver a amizade deixaria marcas profundas em Franz.

 

Mais tarde, Dom Franz atribuiria à influência de Pier Giorgio uma importância decisiva em sua vocação sacerdotal.

 

O futuro sacerdote não havia sido conquistado por um grande discurso. Fora tocado pela vida concreta de um jovem que estudava Engenharia, tinha amigos, praticava esportes, subia montanhas, fazia brincadeiras e, ao mesmo tempo, procurava viver tudo diante de Cristo.

Pier Giorgio mostrava que a fé não precisava afastar um jovem da vida. Pelo contrário: era justamente a fé que fazia sua vida ganhar plenitude.

 

30 de junho de 1925: a última despedida

 

Mas nenhum episódio revela tanto a profundidade daquela amizade quanto o que aconteceu em 30 de junho de 1925.

Naquele dia, Pier Giorgio encontrou Franz enquanto ele fazia sua ronda habitual para cumprimentar alguns de seus amigos mais próximos.

Parecia querer se despedir.

Quando os dois se encontraram, Pier Giorgio contou a Franz que estava sentindo uma forte dor nas costas. Franz imaginou que fosse apenas um músculo distendido.

Ele não poderia saber que aquela dor era um dos primeiros sinais da doença que, poucos dias depois, levaria seu amigo.

 

Os dois permaneceram juntos e, também na companhia de Giuseppe Grimaldi, leram dois episódios da vida de Santa Catarina de Sena, escritos por Johannes Jorgensen. Depois da leitura, permaneceram alguns minutos em silêncio.

 

Dom Vittorio Massetti recordaria mais tarde:

“Ele parecia não querer nos deixar nunca.”

Pier Giorgio então desceu as escadas.

Parecia que o encontro havia terminado.

Mas, quando já estava na rua, chamou Franz de volta.

Queria vê-lo novamente.

 

Franz olhou pela janela. Pier Giorgio o cumprimentou alegremente, como sempre, e disse:

“Deus te abençoe.”

Era uma terça-feira.

Era a última semana da vida de Pier Giorgio.

E aquela foi a última vez que os dois amigos se viram.

 

 

Uma despedida que ganhou outro significado

 

Naquele momento, Franz não poderia compreender plenamente o significado daquelas palavras.

“Deus te abençoe.”

Era uma despedida simples, quase cotidiana. Mas, depois da morte de Pier Giorgio, certamente adquiriu outro peso.

Pier Giorgio havia falado muitas vezes sobre a morte. Para ele, morrer significava estar preparado para o encontro definitivo com Cristo. Por isso, procurava viver em constante vigilância, com o coração voltado para a eternidade.

 

Sem saber que estava fazendo sua última despedida, deixou ao amigo justamente uma bênção.

Poucos dias depois, em 4 de julho de 1925, Pier Giorgio morreria.

Franz perderia um amigo. Mas não perderia aquilo que havia recebido dele.

 

Quando uma amizade se transforma em vocação

 

A influência de Pier Giorgio permaneceu profundamente ligada à vida de Franz.

Mais tarde, já sacerdote, Dom Franz atribuiria à influência daquele amigo uma parte importante de sua vocação sacerdotal. A amizade iniciada entre dois jovens estudantes de Engenharia havia se transformado em algo muito maior.

 

Ao retornar para sua terra, Franz fundou um grupo de Ação Católica e deu-lhe o nome de Pier Giorgio.

Era uma maneira de continuar levando consigo aquilo que havia recebido daquele amigo.

Mais tarde, sua trajetória estaria ligada à fundação da Casa Famiglia Santa Gemma Galgani, que se tornaria um importante coração de caridade em San Benedetto, além de influenciar outros católicos que dedicaram suas vidas ao serviço dos mais necessitados.

A amizade havia se transformado em missão.

 

O amigo que permaneceu

 

A vida de Dom Franz também foi marcada por provações. Enfrentou dificuldades, incompreensões e momentos que exigiram dele humildade, silêncio e perseverança.

Mas, segundo os testemunhos sobre sua vida, jamais abandonou sua fé nem seu amor à Igreja.

Mesmo idoso e debilitado, confinado a uma cadeira de rodas, continuava passando longos períodos diante do Santíssimo Sacramento exposto, como aprendeu com seu amigo Pier Giorgio.

 

Talvez esse seja um dos melhores modos de compreender o que aquela amizade produziu.

Pier Giorgio não deixou para Franz apenas lembranças de juventude. Deixou um testemunho de vida.

Um testemunho de que era possível viver a fé com alegria, amar a Igreja, servir os pobres, cultivar amizades verdadeiras e manter o coração voltado para Cristo.

 

Uma amizade que não terminou em 1925

 

Pier Giorgio partiu cedo demais. Franz, porém, continuou vivendo e carregando consigo a memória daquele amigo.

Fisicamente, a amizade dos dois foi curta. Mas, para Franz, a morte não significava o fim daquela relação.

Ele acreditava que a partida de Pier Giorgio poderia aprofundar ainda mais, na comunhão dos santos, o amor sincero e fraterno que os dois haviam experimentado na terra.

A morte separa fisicamente aqueles que amamos, mas não pode destruir aquilo que foi vivido em Cristo.

 

E durante toda a sua vida carregou a lembrança daquele jovem amigo que brincava, estudava, rezava, servia aos pobres e falava do Céu com a naturalidade de quem acreditava que sua vida caminhava para um encontro definitivo com Deus.

Talvez por isso a última cena entre os dois seja tão significativa.

Pier Giorgio poderia ter dito qualquer coisa.

Mas disse: “Deus te abençoe.”

Uma frase simples.

Uma despedida que, naquele momento, parecia apenas uma despedida.

Hoje, porém, olhando para aquela terça-feira de 30 de junho de 1925, podemos perceber algo que Franz só compreenderia depois: aquelas palavras foram também um último presente.

E talvez seja bonito imaginar que, depois de tantos anos, os dois amigos finalmente se reencontraram.

Não mais nos corredores da Universidade Politécnica de Turim. Não mais em uma estação de trem. Não mais entre brincadeiras, estudos e conversas.

 

Mas naquele encontro definitivo com o Amor que ambos procuraram durante toda a vida.

Uma amizade que começou entre dois jovens estudantes, atravessou a dor da despedida e continuou apontando para o Céu.

 

por Layla Kamila, membro do Apostolado de São Pier Giorgio Frassati. Desde 2012, dedica-se à difusão da vida, espiritualidade e legado do santo por meio de iniciativas de evangelização. Siga: @saofrassati

Veja também