Queridos amigos(as) de Frassati,
Nos últimos dias, tenho me refletido sobre a Páscoa de Pier Giorgio Frassati, especialmente a última que ele viveu nesta terra. Para isso, tenho buscado suas cartas reunidas no livro “Lettere (1906-1925)” e também o testemunho de sua irmã Luciana Frassati no livro “Il cammino di Pier Giorgio”. Há algo nessa última Páscoa que toca de modo particular, talvez porque não seja distante nem extraordinária, mas profundamente próxima daquilo que também vivemos.
É belo perceber que sua relação com a Páscoa começa já no nascimento. Ele veio ao mundo justamente na noite em que a Igreja celebrava a Ressurreição, entre 18h e 19h. Enquanto os sinos anunciavam a vida nova, ele dava início à sua. Há nisso um sinal silencioso, discreto, mas cheio de significado.

Também é belo recordar que, nos dias que antecediam a Páscoa, Pier Giorgio cultivava o hábito do recolhimento. Sua irmã nos conta:
“Nos dias que antecediam imediatamente a Páscoa da Ressurreição, tornou-se um hábito de Pier Giorgio, que completaria anos no dia 6 de abril, retirar-se para acompanhar a Paixão de Cristo no silêncio e no recolhimento da Villa Santa Croce, situada na colina de San Mauro, perto de Turim. O quartinho de Pier Giorgio era o número 19. O Padre Righini testemunha: ‘Entrei no quarto e vi Pier Giorgio de joelhos, com a cabeça sob a cama, que era baixíssima, em uma posição tremendamente incômoda. “Mas o que você está fazendo de joelhos, Pier Giorgio? Que modo é esse?”. Ele respondeu: “Padre, deixe-me fazer ao menos um pouco de penitência”.
Isso não impedia que as constantes explosões de alegria com o amigo Marco Beltramo os obrigassem a serem apelidados de “Messacompagnia Fracassi”. Quarenta anos depois, o Padre Secondo Goria, a quem perguntaram se recordava algo de Pier Giorgio, respondeu de pronto e com entusiasmo: “Oh sim, aquele malandrinho!”, mas acrescentou que, dez minutos antes da Missa, ele se transformava a ponto de levar os outros a sentirem o seu fascínio e o seu exemplo pela forma como rezava…” (Do livro “Il cammino di Pier Giorgio”, de Luciana Frassati.)
Anos depois, em 1925, durante o Ano Santo, encontramos um jovem imerso nas exigências da vida concreta. Não alguém idealizado, mas alguém muito semelhante a nós: com responsabilidades, cansaços e um desejo sincero de viver o bem.
Pouco antes da Páscoa, escreve à irmã incentivando-a a viver melhor a Quaresma com gestos simples de renúncia, “algum pequeno sacrifício e abnegação” (13 de março). Nada grandioso, apenas a fidelidade nas pequenas coisas. Esse detalhe revela, com clareza, o centro de sua vida espiritual.
Ao mesmo tempo, não faltavam limitações concretas. Em carta a um amigo, menciona a dor no joelho e como isso poderia interferir em seus planos: “tudo depende da minha perna; se o joelho esquerdo continuar ruim, então planos medíocres…” (30 de março). Sua vida espiritual não o afastava da realidade, mas se entrelaçava com ela.
Nos dias que antecederam a Páscoa, estava profundamente envolvido com os estudos. Faltava pouco para concluir a faculdade, e a pressão era grande. Desejava fazer um retiro, buscava silêncio, sentia a necessidade de organizar também o interior. No entanto, como tantas vezes acontece, precisou adaptar seus planos. Permaneceu em casa, mas não abriu mão desse esforço interior: “De qualquer forma, irei no domingo, se possível; acredite, preciso de um tempo de silêncio para revisar assuntos espirituais e fazer alguns ajustes espirituais.” (3 de abril).
Outro aspecto que se destaca é o valor que ele atribuía à amizade. Em uma visita a uma amiga, alegra-se com a simplicidade da convivência: a conversa, as notícias, o ambiente acolhedor. Depois, escreve que a amizade é um dos maiores dons que Deus pode conceder. Há nisso uma sensibilidade profunda e concreta:
“Nesta vida terrena, depois do afeto pelos pais e irmãs, um dos afetos mais belos é o da amizade; e todos os dias devo agradecer a Deus por me ter dado amigos e amigas de tamanha bondade, que se tornam para mim um guia precioso por toda a minha vida.”
Na Páscoa, ao escrever a um amigo, seu desejo é direto e essencial: a paz. Sem discursos elaborados, apenas a consciência de que quem vive essa paz possui uma verdadeira riqueza:
“Espero que esta carta chegue a você a tempo da Páscoa e, por isso, envio-lhe os meus melhores votos, ou melhor, apenas um, mas acredito que seja o único desejo que um verdadeiro amigo pode fazer a um querido amigo: que a paz do Senhor esteja sempre com você, porque quando se tem paz todos os dias, você é verdadeiramente rico.”
Após a Páscoa, antes de retornar a Turim, passa pelo Santuário de Oropa, lugar que lhe era profundamente querido. Ali, mais uma vez, leva consigo as pessoas que ama. Sua fé nunca era isolada, mas sempre aberta ao outro: “Lembrei-me de você aqui na bela Oropa. Hoje partimos para Turim.” (16 de abril)
O que mais impressiona é que essa última Páscoa não foi marcada por leveza exterior. Havia preocupações, pressões e incertezas. Seus estudos ainda não estavam concluídos, e as responsabilidades permaneciam. Ainda assim, sustentava uma confiança firme em Deus. Caminhava, como todos nós, em processo, mas com a vida já orientada para o essencial.
Talvez seja justamente isso que mais nos aproxima dele: não uma vida sem dificuldades, mas uma vida vivida com sentido, mesmo em meio a elas.
Que também nós possamos aprender, pouco a pouco, com essa amigo do céu! Feliz Páscoa!
Verso l’alto. Com carinho,
Layla Kamila
Apostolado Pier Giorgio Frassati Brasil.
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