O amor silencioso de Pier Giorgio
“Estou lendo o romance de Italo Mario Angeloni, Amei Assim, no qual ele descreve, na primeira parte, seu amor por uma mulher andaluza e, acredite, estou comovido, porque parece a minha própria história de amor.”
Foi assim que Pier Giorgio iniciou uma carta dirigida ao seu amigo Isidoro Bonini, poucos dias depois de celebrar o que seria seu último Natal na Terra, em 1924. Não é comum encontrar, na vida dos santos, um testemunho tão direto e pessoal sobre uma história de amor. Há, é verdade, alguns relatos de grande intensidade, como o de Santo Agostinho em suas Confissões; mas, em geral, muitas biografias se concentram em padres, religiosos e religiosas, deixando à margem os dramas do coração.
No caso de Pier Giorgio Frassati, porém, quase todas as biografias mencionam o seu amor discreto por uma jovem chamada Laura Hidalgo. Os relatos, no entanto, nem sempre coincidem. Algumas versões afirmam que ele a conheceu quando a família estava em Berlim; outras sustentam que os dois se conheciam desde a infância e que, em 1923, a amizade entre eles se aprofundou a ponto de ele perceber que estava apaixonado. Há ainda quem situe esse enamoramento no verão de 1924. Também as explicações sobre o desfecho variam e, muitas vezes, recaem apressadamente sobre a desaprovação de Adelaide Frassati. Em certos relatos, Laura jamais teria sabido dos sentimentos de Pier Giorgio; em outros, teria percebido claramente. As versões, por vezes, se contradizem até dentro de um mesmo texto.
O que parece mais sólido é que Laura Hidalgo não estudava na mesma turma de Pier Giorgio. Era três anos mais velha e cursava matemática. Órfã ainda jovem, assumira a responsabilidade pelo irmão mais novo após a morte dos pais. Frequentou a mesma escola, a Massimo D’Azeglio, de modo que é possível que seus caminhos já se tivessem cruzado antes. Contudo, foi na primavera de 1923, durante o carnaval italiano, em Little Saint Bernard, lugar onde Pier Giorgio costumava esquiar, que os dois realmente se conheceram de maneira mais próxima. Laura fazia parte do grupo universitário católico feminino chamado Gaetana Agnesi. A partir desse encontro nasceu entre eles uma amizade verdadeira, tanto que ela acabou integrando o círculo mais íntimo de Pier Giorgio, os Tipi Loschi.
Somente em 17 de dezembro do ano seguinte, porém, Pier Giorgio confiou à irmã Luciana que estava apaixonado. Ela recorda que ele se aproximou e, com seus grandes olhos escuros, lhe disse estar apaixonado por uma moça que ela conhecia. Esse detalhe é importante, porque mostra que o sentimento foi revelado à família apenas muito tempo depois do início da amizade com Laura. A célebre visita para o chá, frequentemente mencionada em biografias e artigos, não aconteceu num contexto em que Adelaide e Luciana já soubessem da inclinação afetiva de Pier Giorgio. Por isso, não parece correto afirmar que sua mãe tenha impedido diretamente um namoro. A decisão de não levar adiante esse amor partiu do próprio Pier Giorgio.
Naqueles anos, seus pais atravessavam uma crise profunda e estavam à beira da separação. Esse drama familiar pesava enormemente sobre ele. Pier Giorgio não quis acrescentar mais uma tensão à vida da casa, nem iniciar uma nova história sobre as ruínas do matrimônio de seus pais. Preferiu o silêncio. Não revelou seus sentimentos nem à família, nem à própria Laura.
Os documentos do processo de canonização afirmam que ele não apenas deixou de declarar seu amor, mas sequer o insinuou. Ainda assim, a dor desse sacrifício aparece em algumas cartas dirigidas a amigos, sobretudo entre o final de 1924 e o início de 1925. Era um período particularmente doloroso. Sua irmã Luciana havia acabado de se casar, em janeiro de 1925, e iniciava uma nova etapa de felicidade, enquanto ele, em silêncio, renunciava à possibilidade de um amor que poderia ter transformado sua vida.
Em uma dessas cartas, Pier Giorgio escreveu palavras de grande delicadeza interior:
“...ela é aquela a quem amei com um amor puro e hoje, ao renunciar a ele, desejo a sua felicidade. Peço-vos que rezem para que Deus me dê a força cristã para suportar isso serenamente e que Ele lhe dê toda a felicidade terrena e a força para alcançar a Meta para a qual fomos criados... Assim, ela será sempre para mim uma boa amiga que, tendo-a conhecido nos anos mais perigosos da minha vida, me ajudou a manter-me no caminho certo rumo à Meta.”
Essas palavras revelam a profundidade de sua alma. Seu amor não foi marcado pela posse, nem pelo ressentimento, mas pela renúncia e pelo desejo sincero do bem da pessoa amada. Trata-se de um amor vivido no recolhimento, atravessado pela dor, mas purificado pela fé.
Laura Hidalgo seguiu seu caminho. Tornou-se professora e bibliotecária universitária. Quatro anos após a morte de Pier Giorgio, casou-se com um colega matemático e mudou-se para Gênova. O casal teve três filhos, um menino e duas meninas. Viúva aos cinquenta anos, após a morte repentina do marido por ataque cardíaco, Laura ingressou na Ordem Terceira Franciscana. Lecionou por quarenta e seis anos, teve onze netos e faleceu em 1976, aos setenta e oito anos.
Na vida de Pier Giorgio, Laura permaneceu como uma presença luminosa e silenciosa: não a história de um amor realizado, mas a de um amor oferecido. E justamente por isso talvez tenha deixado um testemunho tão raro e tão humano, no qual a santidade não apaga o coração, mas o eleva.